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setembro 19, 2005
"Bem podem prometer a lua... "
(PRETO NO BRANCO, Fernando Madrinha, Expresso de 17 de Setembro)
"COM a experiência que já têm de promessas de campanha não cumpridas, os eleitores tendem a desvalorizá-las cada vez mais e a fazer as suas opções de voto em função de outros critérios mais subjectivos. Bem podem os candidatos prometer a lua que, se não souberem ou não puderem transmitir credibilidade e confiança, se não mostrarem um pouco de humanidade, um mínimo de simpatia e até de humildade, dificilmente mobilizam os votos que pretendem. Mesmo os daqueles eleitores habituais do partido por que concorrem, pois também essa identificação pela ideologia ou pelo espírito clubista já deu o que tinha a dar.
(...)
Perante este desempenho dos «grandes», é bem possível que muitos eleitores comecem a olhar com mais atenção para os «pequenos». E se é verdade que, nos debates da SIC-Notícias, Sá Fernandes já decepcionou, Ruben de Carvalho e, sobretudo, Maria José Nogueira Pinto vêm ganhando aos pontos o item da credibilidade. Podem muito bem vir a exceder bastante os limites dos partidos que representam, o que não serão boas notícias para Carmona nem para Carrilho. Em especial para este último, já que Nogueira Pinto, cuja candidatura foi aplaudida pelo PS na expectativa de enfraquecer a do PSD, capta bastante simpatia à esquerda, especialmente entre as mulheres. Se as baias partidárias não fossem, ainda assim, um grande obstáculo, quem sabe se não ganharia - e talvez mais merecidamente do que qualquer dos vencedores prováveis."
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Basta ver as análises às sondagens recentes sobre as presidenciais. Há muitos milhares de portugueses que jamais votarão em Cavaco Silva e outros tantos que nunca apoiarão Mário Soares. Mas isso tem cada vez menos a ver com a fidelidade aos partidos a que eles pertencem. Tanto que, na decomposição do eleitorado potencial de cada um dos pré-candidatos, aparecem percentagens significativas de votantes do PS, do BE e da própria CDU - embora esta seja a que fixa melhor a sua base - a optar por Cavaco. E o mesmo acontecerá com Soares no centro e na direita. Quanto mais os partidos monopolizam a vida pública, menos são donos dos votos dos eleitores.
O que é verdade para Belém não o é menos para as autárquicas, que têm uma fortíssima componente presidencialista. Nos milhares de cartazes que estão espalhados por esse país fora, provando cabalmente que a crise financeira não chegou aos partidos - um mistério que todos gostaríamos de ver desvendado um dia - o que salta à vista é uma campanha personalizadíssima de figuras, figurinhas e figurões cujos retratos às vezes são mais do que o bastante para um cidadão decidir, pelo menos, em quais não vota.
Em Lisboa, o «presidencialismo» da câmara e, portanto, das candidaturas, é ainda mais acentuado - de novo com a excepção da CDU, que se esforça por projectar uma ideia de equipa e transmite essa preocupação nos próprios cartazes. A prestação de cada um no contacto com os eleitores e nos debates televisivos assume, portanto, especial importância. Daí supor-se que Carmona Rodrigues e Manuel Maria Carrilho terão uma noção aproximada do desastre que foi para ambos a hora e meia de gritaria com que brindaram os espectadores da SIC-Notícias na quinta-feira.
Carmona, que tinha a seu favor uma imagem de serenidade e de seriedade argumentativa, conseguiu desfazê-la em grande parte. Começou por se queixar das agressões e insultos de Carrilho em debates e entrevistas anteriores, e caiu ele próprio em comentários de gosto duvidoso, expressões agrestes e «indirectas» incompreensíveis para a maioria dos espectadores, como a alusão, nunca explicada, a uma casa de banho luxuosa que Carrilho teria mandado instalar no Ministério da Cultura. No mais, o que passou foi uma visão burocrática dos problemas da cidade, por parte de um candidato sem alma, forçado a responder pelo que fez e pelo que não fez nestes quatro anos e sem que tenha para propor a mais pequena novidade.
Carrilho, por seu lado, deve julgar que a eleição se decide a favor de quem mais grita e fala mais depressa, independentemente do que diga e pouco dizendo além da banalidade - mas sempre com a pose de quem acaba de descobrir a pólvora. Faz de cada debate uma briga, sem o menor pejo de agredir e desconsiderar os outros para se pôr em bicos de pés. Ainda esta semana, na TSF, dizia que Sá Fernandes não tinha condições para presidir sequer a uma junta de freguesia, traçando dele um retrato muito próximo do de um pobre diabo.
Perante este desempenho dos «grandes», é bem possível que muitos eleitores comecem a olhar com mais atenção para os «pequenos». E se é verdade que, nos debates da SIC-Notícias, Sá Fernandes já decepcionou, Ruben de Carvalho e, sobretudo, Maria José Nogueira Pinto vêm ganhando aos pontos o item da credibilidade. Podem muito bem vir a exceder bastante os limites dos partidos que representam, o que não serão boas notícias para Carmona nem para Carrilho. Em especial para este último, já que Nogueira Pinto, cuja candidatura foi aplaudida pelo PS na expectativa de enfraquecer a do PSD, capta bastante simpatia à esquerda, especialmente entre as mulheres. Se as baias partidárias não fossem, ainda assim, um grande obstáculo, quem sabe se não ganharia - e talvez mais merecidamente do que qualquer dos vencedores prováveis.
Publicado por CDSLX às setembro 19, 2005 06:26 PM