setembro 27, 2005
O voto inútil

(Artigo de opinião de Miguel Freitas da Costa, Diário de Notícias de 27 de Setembro)
"Por mais duas vezes vamos ser chamados, nos próximos tempos, a participar na eleição dos nossos governantes pelo método de "depositar numas caixas chamadas urnas uns papelinhos chamados votos". É um ritual que nunca deixou de ser praticado, com mais ou menos frequência e credibilidade, vai para quase 200 anos de vida pública portuguesa. Desde 1976 ganhou um renovado lustre e, aparentemente, uma nova seriedade desde as famosas votações em que, com um suspiro de alívio, vimos o Partido Comunista retratado em toda a inebriante insignificância aritmética da sua "maioria política" e daí se tiraram algumas consequências. Esquecendo o papel desempenhado por "contagens de espingardas" que não eram então metafóricas, criou-se durante algum tempo a convicção de que os votos pesavam.
Muita gente exprime agora, assustada ou preocupada com o descrédito da "classe política" e do "sistema", o temor de que se esteja a desvanecer de novo esta crença, como já aconteceu no nosso passado, e que se procure "outra coisa". Talvez não seja um temor totalmente sem fundamento. É verdade que quase sempre, caridosamente, temos sido poupados a votar sobre as questões decisivas e que ainda agora só por algum perigoso descuido seremos sujeitos a ter que pensar e decidir sobre as coisas mais importantes, como as essenciais opções "europeias". Mas - em política - o que parece é que é, e o que parece neste momento, sem especial razão, é que votar não serve para grande coisa. Em todo o caso, a irritação e descrença dos cidadãos não é um exclusivo do regime português e tem muitas causas que são comuns aos eleitores de quase todo o mundo dito democrático em que nos incluímos. No nosso caso há, no entanto, um factor que não pode deixar de contar especialmente a tirania sob a qual temos vivido da ideia do "voto útil". Marcou-nos profundamente a consciência de como essa ideia fez em tempos a fortuna de um Partido Socialista que era em grande parte responsável pelos problemas de que se apresentou vitoriosamente como única solução.
O "voto útil" também não é uma invenção nacional. Ainda há bem pouco tempo foi a teoria que prevaleceu na segunda volta das eleições presidenciais francesas em que Jacques Chirac foi eleito quase plebiscitariamente graças à histeria que despertou o inócuo mas retumbante sucesso de Jean Marie Le Pen. Mas em Portugal, mais talvez do que em qualquer outra parte, conta com um grande número de fiéis praticantes. Tomemos como exemplo as próximas eleições para a Câmara Municipal de Lisboa. À esquerda e à direita é difícil encontrar quem não ache que Maria José Nogueira Pinto é o melhor dos candidatos em presença e não é fácil descobrir quem esteja na disposição de votar na sua lista.
Não acreditamos que seja possível apostar, como diz que faz o Millennium BCP, em que "só o melhor é bastante". Enleamo-nos sempre em tortuosos cálculos sobre as consequências indirectas do voto que vamos entregar. No fundo, somos muito pouco democratas não estamos dispostos a aceitar que cada voto seja a pura e simples e libérrima expressão do que queremos e deixar que dessa manifestação de cada um de nós saia, com não menor simplicidade e liberdade, o resultado que pelos métodos constitucionalmente adoptados vai exprimir a "vontade colectiva"; pequeninos estrategas todos, contentamo-nos com tentar manipular o processo para que o resultado seja, dentro do que pensamos possível, o que achamos menos mau.
Devíamos já saber que é graças ao "voto útil" que ainda temos uma Constituição meio marxista e como principais partidos dois aglomerados "sociais-democratas" que constituem a destilação de todos os arranjos que o medo de não parecer socialista promoveu nos primeiros anos desta III República. Se não temos em quem votar, não votemos. Se não gostamos das regras em vigor, tentemos mudá-las. Mas chegou talvez a altura - e talvez não haja muitas mais oportunidades antes de desaparecermos como Estado - de nos decidirmos de uma vez a pôr o voto onde pomos as palavras e o coração. O resto é que é verdadeiramente um voto inútil."
Publicado por CDSLX às 02:59 PM
setembro 19, 2005
"Bem podem prometer a lua... "
(PRETO NO BRANCO, Fernando Madrinha, Expresso de 17 de Setembro)
"COM a experiência que já têm de promessas de campanha não cumpridas, os eleitores tendem a desvalorizá-las cada vez mais e a fazer as suas opções de voto em função de outros critérios mais subjectivos. Bem podem os candidatos prometer a lua que, se não souberem ou não puderem transmitir credibilidade e confiança, se não mostrarem um pouco de humanidade, um mínimo de simpatia e até de humildade, dificilmente mobilizam os votos que pretendem. Mesmo os daqueles eleitores habituais do partido por que concorrem, pois também essa identificação pela ideologia ou pelo espírito clubista já deu o que tinha a dar.
(...)
Perante este desempenho dos «grandes», é bem possível que muitos eleitores comecem a olhar com mais atenção para os «pequenos». E se é verdade que, nos debates da SIC-Notícias, Sá Fernandes já decepcionou, Ruben de Carvalho e, sobretudo, Maria José Nogueira Pinto vêm ganhando aos pontos o item da credibilidade. Podem muito bem vir a exceder bastante os limites dos partidos que representam, o que não serão boas notícias para Carmona nem para Carrilho. Em especial para este último, já que Nogueira Pinto, cuja candidatura foi aplaudida pelo PS na expectativa de enfraquecer a do PSD, capta bastante simpatia à esquerda, especialmente entre as mulheres. Se as baias partidárias não fossem, ainda assim, um grande obstáculo, quem sabe se não ganharia - e talvez mais merecidamente do que qualquer dos vencedores prováveis."
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Basta ver as análises às sondagens recentes sobre as presidenciais. Há muitos milhares de portugueses que jamais votarão em Cavaco Silva e outros tantos que nunca apoiarão Mário Soares. Mas isso tem cada vez menos a ver com a fidelidade aos partidos a que eles pertencem. Tanto que, na decomposição do eleitorado potencial de cada um dos pré-candidatos, aparecem percentagens significativas de votantes do PS, do BE e da própria CDU - embora esta seja a que fixa melhor a sua base - a optar por Cavaco. E o mesmo acontecerá com Soares no centro e na direita. Quanto mais os partidos monopolizam a vida pública, menos são donos dos votos dos eleitores.
O que é verdade para Belém não o é menos para as autárquicas, que têm uma fortíssima componente presidencialista. Nos milhares de cartazes que estão espalhados por esse país fora, provando cabalmente que a crise financeira não chegou aos partidos - um mistério que todos gostaríamos de ver desvendado um dia - o que salta à vista é uma campanha personalizadíssima de figuras, figurinhas e figurões cujos retratos às vezes são mais do que o bastante para um cidadão decidir, pelo menos, em quais não vota.
Em Lisboa, o «presidencialismo» da câmara e, portanto, das candidaturas, é ainda mais acentuado - de novo com a excepção da CDU, que se esforça por projectar uma ideia de equipa e transmite essa preocupação nos próprios cartazes. A prestação de cada um no contacto com os eleitores e nos debates televisivos assume, portanto, especial importância. Daí supor-se que Carmona Rodrigues e Manuel Maria Carrilho terão uma noção aproximada do desastre que foi para ambos a hora e meia de gritaria com que brindaram os espectadores da SIC-Notícias na quinta-feira.
Carmona, que tinha a seu favor uma imagem de serenidade e de seriedade argumentativa, conseguiu desfazê-la em grande parte. Começou por se queixar das agressões e insultos de Carrilho em debates e entrevistas anteriores, e caiu ele próprio em comentários de gosto duvidoso, expressões agrestes e «indirectas» incompreensíveis para a maioria dos espectadores, como a alusão, nunca explicada, a uma casa de banho luxuosa que Carrilho teria mandado instalar no Ministério da Cultura. No mais, o que passou foi uma visão burocrática dos problemas da cidade, por parte de um candidato sem alma, forçado a responder pelo que fez e pelo que não fez nestes quatro anos e sem que tenha para propor a mais pequena novidade.
Carrilho, por seu lado, deve julgar que a eleição se decide a favor de quem mais grita e fala mais depressa, independentemente do que diga e pouco dizendo além da banalidade - mas sempre com a pose de quem acaba de descobrir a pólvora. Faz de cada debate uma briga, sem o menor pejo de agredir e desconsiderar os outros para se pôr em bicos de pés. Ainda esta semana, na TSF, dizia que Sá Fernandes não tinha condições para presidir sequer a uma junta de freguesia, traçando dele um retrato muito próximo do de um pobre diabo.
Perante este desempenho dos «grandes», é bem possível que muitos eleitores comecem a olhar com mais atenção para os «pequenos». E se é verdade que, nos debates da SIC-Notícias, Sá Fernandes já decepcionou, Ruben de Carvalho e, sobretudo, Maria José Nogueira Pinto vêm ganhando aos pontos o item da credibilidade. Podem muito bem vir a exceder bastante os limites dos partidos que representam, o que não serão boas notícias para Carmona nem para Carrilho. Em especial para este último, já que Nogueira Pinto, cuja candidatura foi aplaudida pelo PS na expectativa de enfraquecer a do PSD, capta bastante simpatia à esquerda, especialmente entre as mulheres. Se as baias partidárias não fossem, ainda assim, um grande obstáculo, quem sabe se não ganharia - e talvez mais merecidamente do que qualquer dos vencedores prováveis.
Publicado por CDSLX às 06:26 PM
Lido na Blogosfera
Manuel Falcão, A Esquina do Rio
"LISBOA – Quanto mais a campanha avança, mais ficam claras as fragilidades de vários candidatos. Da superficialidade de Sá Fernandes à pesporrência de Carrilho, passando pelo voluntarismo sem estratégia de Carmona Rodrigues, já apareceu de tudo. Até agora, salvam-se Maria José Nogueira Pinto e Ruben de Carvalho, claramente os dois candidatos que melhor conhecem Lisboa e que têm ideias mais assentes sobre o assunto – por muito que isto choque os bem pensantes e os funcionários partidários muito politicamente correctos que vão enchendo as restantes campanhas de disparates."
Publicado por CDSLX às 03:20 PM
julho 04, 2005
A hora de Maria José, por Daniel Sampaio
(texto publicado a 23 de Junho no jornal A Capital)
"Maria José Nogueira Pinto é uma excelente candidata à Câmara de Lisboa. Embora longe da sua perspectiva política, gosto do seu estilo: convicção e rigor nas suas posições, em diversos contextos, fazem com que tenha apreciado o seu percurso.
Quer na Maternidade Alfredo Costa, quer na Misericórdia de Lisboa, a sua actuação revelou um rumo claro e um sentido de serviço público que merecem registo. Conhece muito bem Lisboa, porque está no terreno há vários anos e a sua experiência de trabalho nos campos da Segurança Social e da Saúde são importantes trunfos para a campanha.
Deseja «refundar a direita» e por isso nunca entrou no núcleo sectário de Portas, que sempre soube ter um fim a prazo. Sabe que o avanço da sua ideologia dependerá da forma como o seu grupo souber defender (de modo sempre civilizado) os valores que a separam da esquerda.
Não vai ganhar a Câmara, mas comprometeu-se a aceitar trabalhar na autarquia, respeitando o mandato que obtiver: uma atitude correcta, que deveria servir de exemplo a muita gente. Esperemos pelo seu programa, para o analisarmos em conjunto com o dos outros candidatos, pois Lisboa precisa de ideias e de propostas transformadoras e o seu contributo por certo será útil. Tem para já um mérito: ao contrário de Carmona, sempre soube manter distância face à aliança Santana-Portas, de quem os portugueses não têm saudades. Ainda bem que aparece na luta eleitoral por Lisboa."
Publicado por CDSLX1 às 07:16 PM